Bob Fernandes
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 AFP (Usain Bolt) / Fernando Vivas-Agência A Tarde-Futura Press (Dorival Caymmi)

Dez e meia da noite. Mais uma vez no maravilhoso estádio Ninho de Pássaro, agora para saber quem é o homem mais rápido do mundo, o vencedor dos 100 metros rasos. Pela manhã, com 21s30, César Cielo entrou para a história da natação e do esporte brasileiro ao se tornar o atleta olímpico mais rápido do mundo nos 50 metros nado livre.

Usain Bolt, marrento, simula disparar uma flecha- que seria ele mesmo- três minutos antes do início dos 100 metros, a prova mais importante do atletismo mundial. Vai começar. O estádio emudece. Tiro disparado, em uníssono um oooohhhh ecoa pelas arquibancadas, Bolt larga atrás. Mas a 10 metros da chegada, já desconectado do segundo pelotão, o jamaicano diminui o ritmo, bate no peito e comemora os 9s69, o ouro e o recorde mundial.

Estamos em frente à linha de chegada, jornalistas se entreolham, se espantam com a facilidade, em especial com a diminuição do ritmo para a comemoração antecipada. O homem mais rápido do mundo sapateia, dança, dispara flechas imaginárias e inicia a volta olímpica.

Imperdível, risível, a dúzia de privilegiados fotógrafos que trabalha dentro da pista a tentar alcançar Bolt. Máquinas, lentes e abdomens a sacolejar no rastro das largas passadas do velocista, que busca sua torcida e a bandeira da Jamaica.

Diante das câmeras e lentes, Usain Bolt começa a faturar seus milhões de dólares. Bandeira às costas, segura as sapatilhas douradas, uma em cada mão. Quem filmar ou fotografar o jamaicano nos instantes seguintes à vitória espalhará uma mensagem pelos quatro cantos da Terra: quem calça o humano mais rápido do mundo.

Ver quem são os homens mais rápidos do planeta na água custou caro, muito caro neste sábado, 16. Na sexta-feira a polícia chinesa havia prendido 110 cambistas. Em vão. Vai cair na piscina, para nadar os 100 metros borboleta, o anfíbio que todos querem ver quebrar o recorde de Mark Spitz, 7 medalhas em Munique/72: Michael Phelps, norte-americano como Spitz.

Nas cercanias do Cubo d’água, a disputa por ingressos no câmbio negro. Brasileiros na batalha. César Cielo, cheiro de ouro, vai nadar os 50 metros. Felipe Viera, jornalista gaúcho, resolve pagar pra ver.

Em Porto Alegre, Felipe Vieira tem programas na Band AM, Band News e Band TV. Ele está em Pequim por conta própria, por amor aos esportes e à aventura. Paga ingressos do seu bolso. Sempre no câmbio negro. O colorado, que foi ao Japão ver o Inter sagrar-se campeão do mundo, já é chapa dos cambistas.

A coisa não está fácil. O cambista, inglês, percebe a camisa verde-amarela de Felipe, e sabe que há um brasileiro nas finais da manhã. Pede US$ 600. Felipe regateia mas pensa em pagar. Quando vai meter a mão no bolso, surge um irmão do Norte e pergunta quanto é. O cambista aponta o orecchione Phelps no telão e comunica, sereno: “Mil dólares”.

O norte-americano entrega dez Franklins e pega o ingresso. Felipe, saliva e pergunta: “Tem mais um?”. Resposta: “Tenho, o último, por mil dólares”. O norte-americano que quer assistir Michael Phelps se tornar lenda paga mais mil e leva o último ingresso, para um amigo.

-Não deu, amor, mil dólares… -, desabafa Felipe para a namorada, Allessandra. Ela, em Petrópolis, Porto Alegre, encontra a solução. Felipe Viera, que queria tanto ouvir o hino nacional e ver a bandeira brasileira subir no pódio, acompanha a vitória de Cielo pelo telefone. Lá em Porto Alegre a namorada Allessandra aumenta o som da tevê enquanto Felipe, solitário em frente ao Cubo d’ água, gruda o ouvido no celular. César Cielo é o primeiro ouro do Brasil em Pequim.

Phelps se torna lenda. Nos100m borboleta faz 50s58 e bate o sérvio Mirolad Cavic, que até o último dos seus dias pensará no que perdeu, no que deixou de ganhar. Cavic chegou à borda da piscina à frente, mas vacilou. Phelps, aos 23 anos, tocou a unha antes e por um centésimo de segundo ganhou seu sétimo recorde e ouro.

O recordista de medalhas olímpicas até então estava em Detroit (EUA), onde um dos filhos jogaria basquete neste sábado. Mark Spitz, magnânimo aos 58 anos, resumiu a ópera: “Michael foi épico”.

Um dia para a história dos homens mais velozes nas pistas e piscinas. Usain Bolt dispara suas flechas, exibe suas sapatilhas, dança enquanto o telão do Ninho de Pássaro reprisa a vitória do homem mais rápido do mundo.

Penso na notícia recebida há pouco. Aos 94 anos morreu Dorival Caymmi, mestre da música brasileira. Dele se dizia ser o criador de um novo modo de viver a vida, de se medir o tempo. Existiria um tempo lento, um outro muito lento, e um ainda mais lento, o de Dorival Caymmi. Reprise no telão. Bolt, disparado… tão rápido que São Caymmi desconfiaria.

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  1. chororo » Postado em: 26 de março, às 01:52

    E ninguém mais cala
    esse chororô…

    Quem escreve o que quer
    Lê o que não quer.

  2. Chorao » Postado em: 25 de março, às 18:18

    Tu é um cagao chorao ein processando a NC so pq fico “tristinho”

  3. Bruno » Postado em: 25 de agosto, às 14:39

    Olhem o grid na foto. Por que os americanos fazem ou fizeram, não se justifica, que outros possam também fazer. Lembram-se da Florence Griffith-Joyner, pois é. Trata-se de roubo, e o COI é conivente com toda esta palhaçada. Quem não se droga, não tem a menor chance. Muito dificil acreditar que o cara é tão melhor que os demais. Só tempo dirá.

  4. Tiago » Postado em: 18 de agosto, às 21:16

    Nossa, pedro. Na minha terra isso se chama peleguismo.

  5. Roger Vadan » Postado em: 18 de agosto, às 18:28

    Só pegam quando cara é jamaicano ou outro fim de mundo, o Carl Lewis agora se sabe que era “aditivado” Naquela famosa prova dos 100m do Ben Bombado Johnson, os três primeiros estavam na química também.

    Os três atletas beneficiados com medalhas após a desclassificação de Ben Johnson em Seul, os americanos Carl Lewis e Calvin Smith e o inglês Linford Christie, foram, em algum momento de suas carreiras, em provas mais ou menos importantes, nacionais ou internacionais, apanhados em testes antidoping por consumo de substâncias ilegais. Johnson foi o único que admitiu usar drogas e o único que perdeu suas medalhas e seus recordes.

    Ou seja o Robson Caetano teria sido o primeiro dos honestos naquela.

  6. edu » Postado em: 18 de agosto, às 18:22

    pelo endereco IP da para detectar o post deste Ricardo…comentario racista!!!!

  7. Christiane » Postado em: 17 de agosto, às 22:41

    Eu desconfio desse americano.

  8. pedro paulo » Postado em: 17 de agosto, às 14:17

    a diferença eh que o doping do Caymmi é vento na varanda

  9. pedro » Postado em: 17 de agosto, às 11:57

    Tiago. O ciúme é tanto que você deu bobeira. Entrou 1 e 16 da madrugada. Tá no plantão em Pequim ou no Brasil? Ou é doido? Sábado de madrugada e você nessa! Pense. O que leva alguém a escrever comentário num blog a essa hora? Isso ai que você sente. Claro que você é um jornalista como o Bob. Então já deveria saber o mínimo. Um jornalista entrevista, faz perguntas: “Sentiu o quê, pensou o quê?” Depois descreve. Mas você a uma da madrugada, desesperado, tentando achar uma brecha? Faz assim Tiago. Na sua mesa além do Paulo, do Lucas, do Iscariotes também está Ele. O J. Ele pode tudo. Reza pra ele pede bastante e quem sabe um dia ele concede e você consegue também. Aí você vai escrever de verdade. Um abraço do irmão Pedro

  10. sidnei » Postado em: 17 de agosto, às 10:43

    São Caymmi dexconfiaria e eu tenho desconfiado da velocidade destes seres (humanos????).. Será que aí tem?????

  11. Tiago » Postado em: 17 de agosto, às 01:16

    Bob Coelho (em referência ao seu escritor favorito),
    Apesar da elegência contida em cada frase sem verbo de sintaxe truncada, fiquei com uma única dúvida sobre o seu texto.
    Como foi que o néscio repórter pôde apurar que o Felipe estava realmente com a boca cheia de baba ao abordar o cambista?

  12. jorge » Postado em: 16 de agosto, às 23:50

    Disse tudo.

  13. bruno vaz » Postado em: 16 de agosto, às 20:49

    Bob fernandes,

    Que bom ler um texto de qualidade na internet.
    Bruno Vaz.
    Campinas

  14. Clandestino » Postado em: 16 de agosto, às 20:12

    Bob, muito bom o texto, como de costume, mas discordo de você quando chama o Usain Bolt de marrento.
    Esse cara, o Bolt, só precisava de uns dreads pra ser o novo garoto propaganda da Jamaica - tranquilo, relaxado, feliz. Muito, mas muito diferente de quase todos os corredores dos 100 metros, desde a época de que me lembro comecei a acompanhar jogos olímpicos (Carl Lewis, Ben Johnson, Donovan Bailey…) até mesmo os contemporâneos como Tyson Gay e Asafa Powell, esses sim marrentos até não dar mais.
    Ver o cara tranquilo antes da prova, fazendo gracinhas pra câmera, se divertindo em estar ali, ver o cara fazendo dancinha pra câmera depois da corrida, foi demais, mostra que você não precisa ser um chato pra ser o melhor.
    Abs,

  15. e.brown » Postado em: 16 de agosto, às 19:25

    Saudações, Bob, my dear. Texto delicioso, como sempre. Devo confessar que só passei a gostar mesmo de ler sobre esportes quando comecei a ler seus textso, crônicas na verdade, muitos anos anos trás, na primeira copa do mundo que vc cobriu. Graças a eles, descobri como poderiam ser inteligentes e divertidos textos sobre futebol ou outro esporte qualquer, como por exemplo este das olimpíadas. Um texto assim te revela muito masi do a maravilha que é um Phelps, Usain Bolt ou Cielo, que eu achei espetacular. Valeu, mais uma vez!
    E salve Caymmi!!!!!

  16. Valmir » Postado em: 16 de agosto, às 18:44

    Pode até ser que não pegue esse tal de Usain Bolt agora, mas como seu material ficara guardado por + oito anos, vão pegar ele um dia, pois a prova foi muito “sinistra”, o cara não fez nem esforço, facial ou corporal e ainda diminuiu o rítmo no final, muito estranho esse resultado…

  17. Eduardo » Postado em: 16 de agosto, às 16:37

    ótimo texto :)

  18. Ricardo Zardo » Postado em: 16 de agosto, às 16:26

    Não entendi o Caymmi na história, pois baiano é tudo leeeeeeeeeeento quase parado, nada a ver com uma prova de 100 m. Respeitando o passamento do grande compositor, que por certo foi para o andar superior.

  19. célia » Postado em: 16 de agosto, às 16:20

    Bolt: Rápido, emocionante,

    Caymi, lento, apaixonante.

    maravilhoso paralelo dos especiais.

  20. Aristóteles Cardona Jr » Postado em: 16 de agosto, às 16:16

    texto miito bom!

  21. Colorado-RS » Postado em: 16 de agosto, às 16:14

    O Caymmi está com cara de quem está pensando: aonde vai esse cara com tanta pressa?!?!?! Com certeza, não nasceu na Bahia!!!

  22. Matias Almeida. » Postado em: 16 de agosto, às 16:12

    Bob Fernandes,
    Você falou de dois homens absurdamente especiais, cada um na sua velocidade.Adorei esse paralelo. Continuo acompanhando seu blog,
    Matias.

  23. Bruno » Postado em: 16 de agosto, às 16:09

    Doping….

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Bob Fernandes cobriu a Copa América de 2007 pelo Terra Magazine e, como cronista, esteve em três Copas do Mundo.