Bob Fernandes

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AP

Hora de arrumar as malas e ir. Na memória, grandes feitos e malfeitos dos 11 mil atletas de 204 países. Os recordes mundiais foram 43, os olímpicos 132 e, também recorde, 87 países ganharam medalhas. De tudo para o gosto dos 21 mil jornalistas acampados por um mês ou mais na China.

Do já lendário orecchione Michael Phelps e seus 8 ouros e recordes aos 3 ouros do incrivelmente veloz – e bota incrível nisso - Usain Bolt, da fascinante, imbatível Isinbayeva e seu ouro numa noite de lua cheia e estádio lotado à brutal derrota do atirador  norte-americano Matt Emmons, que, assim como em Atenas, jogou fora no último segundo o ouro já garantido. Das glórias ao espetacular coice na cabeça do árbitro desferido pelo cubano do taekwondo, Angel Valodia, neste último dia de provas (veja aqui).

Na memória os gigantescos e os pequenos feitos, os acertos, as históricas voltas por cima e os erros dos brasileiros. Quinze medalhas, 3 de ouro, 4 de prata, 8 de bronze. Ganharam pouco e perderam muito, mas jogaram o jogo, com a força, o talento e as condições que têm.

 Ótimo que a fieira de grandes derrotas imponha o debate, aberto, sem conclusões precipitadas: o Brasil precisa mesmo perseguir o objetivo de se tornar potência olímpica, precisa mesmo de uma olimpíada regada a dezenas de bilhões de dólares de dinheiro público, ou precisa que todos possam ter a chance de acesso a escolas dignas do nome e à prática massiva de esportes?

 O Brasil deve lançar-se na formação de elites esportivas olímpicas ou deve investir pesado nas escolas e colher os frutos, inclusive esportivos, logo mais à frente? Sim, há na praça discursos a pregar que estas não são tarefas excludentes mas, contabilizadas as dezenas de bilhões que não sobram para isso e para aquilo, como manter em pé esses discursos?

 E um projeto que vá para além do olímpico pode ser desejo e missão de uma casta que decide seus negócios e planos a portas fechadas ou teria que ser fruto de um amplíssimo debate, portas escancaradas? Na China foi a portas fechadas. Porque a China é a China - não é justamente isso que os mesmos pregam, dizem, escrevem?

 Não há como desconhecer o perfil do Estado Chinês. Aqui mesmo nos corredores do hotel ele está presente. Hotel credenciado pelo Comitê Organizador e vizinho ao estádio Ninho de Pássaro. Vigilância absoluta.

Revista na entrada e saída do ônibus para o Centro de Mídia, camareiras em cada corredor do hotel, 24 horas por dia. Para anotar cada vez que um hóspede entra ou deixa o quarto, visita ou não visita um hóspede vizinho. À pergunta do por que tanto, a resposta: “Para sua segurança”.

 Apesar da presença e missão de contorno policialesco, do livrinho que tudo anota e guarda, comovedoras a dedicação, a disciplina o desejo das pobres meninas do interior em atender, agradar, ajudar, em receber bem quem veio à China. E sem aceitar um centavo como retribuição.

 Meio milhão de voluntários. Muitas vezes incômodos, outras tantas apenas by the book como quase tudo na China, como quase todo serviço no país, mas acima disso o desejo de receber bem.

 Com a régua e  compasso de sempre não é difícil perceber, medir o que é o Estado Chinês: um quarto da população da Terra, quase 10 milhões de quilômetros quadrados e inimigos recentes ou antigos ao longo da fronteira de 12 dos 24 países vizinhos, país que gere a um só tempo um dos mais radicais e ferozes experimentos da economia de mercado e um regime político dos mais fechados, comunista, de partido único e centralista.

 Visto isso vale a pena instigar: o que, como seriam os Estados Unidos, a Inglaterra, o Brasil… se tivessem este bilhão de bocas para alimentar, aridez em quase 70% do território e o cerco de inimigos históricos?

Além dos recordes e fracassos boa parte dos jornalistas buscou responder também a estas perguntas. Alguns já se foram, outros seguem por aqui, exaustos pela caça. Daí, talvez, o “não aguento mais, chega”.

Talvez, também charme, porque não há como não guardar a dimensão do que aqui se viu, viveu. Da emoção e talentos extraordinários nas pistas, quadras, piscinas, campos, ao Grande Show da Grande China.

 Espetáculo de US$ 45 bilhões montado pelo Estado Chinês para mostrar ao mundo a China que quer se mostrar. Espetáculo com 5 mil anos de histórias, dinastias de milênios, 30 milhões de mortos de fome sob Mao Tse-tung. Espetáculo esportivo, midiático, politico, que emocionou e enredou corações e mentes no mais populoso país do mundo. Diga o que disser, queira o que quiser o Ocidente.

Sei, quase todos sabemos que a poção do controle estava, está embutida na fórmula de Pequim 2008, mas nem por isso é menor a vontade de levar a China na memória. Da arrepiante e tecno-humana Festa de Abertura ao feérico encerramento neste domingo.

 Na saída do Ninho de Pássaro, nas rádios, televisões, pelas ruas de Pequim ainda ecoa o hino meloso-patriótico de Albert Leung (português e inglês), música me-pega-que-eu-quero de Xiao Ke. Sei, sabemos do veneno daquela canção, pueril mas veneno, e ela ficará enquanto memória existir.

Até a próxima.

 

Veja também:

» Diário da China
» Confira as informações de Terra Magazine
» Acompanhe as últimas notícias das Olimpíadas

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  1. abrocket » Postado em: 21 de setembro, às 07:25

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Bob Fernandes cobriu a Copa América de 2007 pelo Terra Magazine e, como cronista, esteve em três Copas do Mundo.