Bob Fernandes

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Cristiane (Foto: AP)

Com saudades do futebol em dias de outros 26 esportes, fomos ao Estádio dos Trabalhadores assistir a Brasil e Nigéria. Três a um, 3 gols de Cristiane (foto acima), e às 7 da manhã da sexta-feira, hora daí, o Brasil enfrenta em Tianjin a Noruega – que levou 5 a 1 do Japão e ficou em segundo no grupo G.

A seleção começou avançada e as nigerianas presas atrás. Mas havia algo estranho em campo; o próprio gramado. Depois do jogo, Marta (Umea, Suécia) e o técnico Jorge Barcellos falaram sobre o jogo amarrado, com bolas sempre um pouco além ou aquém: “A grama segura a bola, ela não rola”, contou Marta. “…o piso é irregular, desvia a direção da bola e, com isso, erramos ainda mais passes”, disse Barcellos.

O técnico ainda não tinha estatísticas prontas, nem o serviço olímpico oferece, mas a quantidade de passes errados foi enorme. Os números que Barcellos tem são ainda do primeiro jogo, contra a Alemanha, e dão uma idéia de qual tem sido um dos erros básicos do time: foram 78 os passes errados na estréia contra as alemãs.

Erros do time sim, admitiu Barcellos apesar da classificação em 1º lugar no chamado Grupo da Morte, à frente da campeã mundial Alemanha, da Coréia do Norte e da Nigéria. A primeira situação de perigo real na partida surgiu exatamente de um passe errado, na fogueira, aos 13 minutos.

A goleira pernambucana Bárbara (do Sport), reserva de Andréia (do Prainsa, Espanha) - que sentiu uma contusão e ficou no banco -, tocou para Simone (Lyon, França) que, também desatenta, perdeu a bola. Chute do bico da pequena área esquerda, à queima-roupa, que Bárbara defendeu com o pé direito.

Cinco minutos depois outro vacilo, este pela direita e dentro da área. Pênalti convertido por Nkwocha, a número 4, melhor jogadora da Nigéria na partida. Gramado ruim ou não, as nigerianas seguiram mais leves no jogo, rondando mais que o Brasil, até Rosana (SV Neulengbach, Áustria) achar pela esquerda uma jogada de linha de fundo. E em cima exatamente de Nkwocha.

Rosana pareceu sair pelo lado errado, mais uma vez com a bola mascando, mas na dividida livrou-se da 4 e levantou para a risca da pequena área. Encontrou Cristiane (Linköpings, Suécia), que de cabeça fez aos 33 minutos. Aos 35, a grande jogada individual da partida.

De costas para o gol, a goleira Dede adiantada, Cristiane ergueu a bola com o pé esquerdo à altura da cintura e deu uma puxeta; debate na tribuna de imprensa: puxeta, meia bicicleta ou bicicleta? Monociclo foi a solução de compromisso, mas a história registrará bicicleta.

Pouco importa. Vale é a belíssima imagem que os canais chineses não param de repetir. Golaço que levou uma repórter sueca a pedir a Marta que explicasse o “gol sensacional”. Ou, segundo o olhar do entusiasmado tradutor da entrevista pós-jogo, “o gol fantástico e surpreendente”.

A mais concatenada jogada verde-amarela da partida fecharia o caixão nigeriano aos 48, último minuto do primeiro tempo. Numa triangulação pela direita, Maycon (Saad, do Mato Grosso do Sul) tocou para Cristiane, novamente ela, que apenas escorou da altura da marca do pênalti.

A bola rola e a Nigéria volta no ataque no segundo tempo. Três boas chances até que, aos 19, outra grande jogada da inspirada Cristiane. A atacante recebeu pela direita à entrada da área e, depois de escorar duas marcadoras, girou e bateu com a esquerda, em curva para dentro, buscando o ângulo direito. Dede saltou e fez a mais bela defesa da tarde-noite.

Depois do jogo, Jorge Barcellos responderia a uma pergunta sobre o mais grave problema do time brasileiro, o vazio no meio-campo na hora da armação. Vazio que se repetiu contra a Nigéria.

Em boa parte do jogo, no instante da armação, o meio-campo fez lembrar o deserto de Gobi. Esse vazio foi fatal na derrota para a Alemanha na final do Mundial 2007, em Shanghai, reconheceu hoje Barcellos.

Pergunta: A Marta, assim como na derrota para a Alemanha em 2007, pareceu mais uma vez sacrificada pela ligação direta, pelas bolas longas da defesa para o ataque. Ela se desgasta boa parte do jogo atrás de ‘bolas podres’. O vazio no meio campo é por conta da característica das jogadoras ou é erro mesmo?

Resposta de Jorge Barcellos:

- Temos tentado corrigir isso nos treinamentos. Com essas bolas longas o meio-campo não acompanha, não tem como acompanhar as jogadas. Não tem como fazer as jogadas de fundo, de meio, de troca de bola, isso leva também às dificuldades na hora do passe e não permite ao time imprimir um ritmo, dar uma intensidade à partida que obrigue o adversário a correr atrás, a se mover de forma intensa atrás do nosso time.

Concluiu o técnico da seleção brasileira:

- Esse vazio no meio-campo e as bolas longas levam a outro problema: não dão às meias o tempo para chegar, ficamos com a Marta e a Cristiane isoladas e aí não dá, temos que ter três atacantes na área. Contra a Coréia teve jogada que a Cristiane estava sozinha na área… Temos que melhorar isso…

PS: Hoje é dia de dormir cedo aqui em Pequim. Amanhã pela manhã tem ginástica olímpica.

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Comentários

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  1. brasil » Postado em: 12 de agosto, às 17:52

    adoro futebol

  2. emilio » Postado em: 12 de agosto, às 17:54

    É isso aí.
    O vazio existe, mas 3 gols também.
    Pedro luiz

  3. Cláudio » Postado em: 12 de agosto, às 18:17

    preconceito é crime Sr. Vidal
    até mesmo o Dunga (seria melhor aproveitado na seleção feminina do que na masculina)
    Brasil Vice Olímpico as próprias custas e graças à arbitra.
    a seleção masculina, salvo duas ou três exceções, são todos convocados por empresários, que querem vender os “meninos”, seleção de jogadores que estão na Europa, seleção sem prestígio, agora quanto ao Dunga, o pau-mandado, ia fazer o que no feminino, passar vergonha? lá se convoca quem joga, e o Anão só convoca quem o mandam. Vida longa as mulheres, FUTEBOL maiúsculo, raçudo e apaixonado.

  4. Vitor » Postado em: 13 de agosto, às 15:37

    Muito bom Bob, é isso mesmo, vejo um monte de gente reclamando da falta do “futebol arte” e coisa e tal, e tal coisa. Mas “futebol arte” por si, não ganha jogo, muito menos uma olímpiada, o que ganha é gol, e isso, essa seleção sabe fazer.

  5. Luís Bueno » Postado em: 14 de agosto, às 13:53

    É isso ai gurias voçês são de mais mesmo e dalle BRASIL. e ta bom demais pra se preocupar é só a garra e o talento ja esta ai com elas duvido que elas tomem gol com a goleira ai minha linda vamos pro OURO meninas.

Bob Fernandes cobriu a Copa América de 2007 pelo Terra Magazine e, como cronista, esteve em três Copas do Mundo.