Bob Fernandes
Diego erra. O técnico explica tudo
O queixo de Diego Hypólito treme, os braços também, os olhos estão cheios de lágrimas, ele apenas balbucia enquanto tenta escapar dos repórteres na zona de entrevista: “…peço desculpas ao povo brasileiro…”. Diego escapa das perguntas e seu técnico na seleção e no Flamengo, Renato Araújo, encara a imprensa brasileira. Muitos, como eu, leigos. Outro tanto pouco mais que curiosos, um ou outra realmente do ramo.
Comoção. Glenda Kozlowski, tetracampeã mundial de Bodyboard no final dos 80 e início dos 90, agora repórter da Tv Globo, tem os olhos vermelhos, lágrimas ainda a rolar. Emoção. Daniele, irmã de Diego, abraça Glenda, ambas a chorar.
O técnico Renato Araújo a princípio reluta, parece não ter o que dizer. Mas aí solta tudo, aos borbotões. Mais do que o que diz, o dizer e o como disse ajudam a compreender o conjunto da obra muito além do erro técnico.
Renato relata, take a take, o drama.
- Diego estava tranqüilo. Tão tranqüilo que sorriu ao final de um dos movimentos. Aí, não se sabe por que, ele antecipou o momento de começar a saída, abriu o campo antes do que deveria. Ele quis cravar antes do final, tentou abrir a última série um segundo antes do tempo e ai cometeu o grande erro.
A queda, a perplexidade exposta na boca aberta e nos olhos arregalados ainda no solo, as lágrimas, o mantra “eu não acredito, eu não acredito, eu não acredito…”, e o técnico a levantar-se do banco e deixá-lo a sós, cabeça derreada.
Por quê?
- Depois do décimo quinto ‘eu não acredito’ eu não tinha mais o que dizer, me levantei e fui ficar perto do médico. Era o momento dele ficar só, com seu sofrimento, sua imensa dor. Ele vai cobrar isso dele mesmo por muito, muito tempo. Eu ia dizer o quê?
Disse o quê?
- Disse ‘o mundo caiu, o seu mundo, o meu mundo caiu, nosso mundo caiu, mas a vida continua’. Pensei no quê? Na minha família toda reunida no Brasil…no que dizer pra eles. O que o Diego vai dizer para a família dele? Não sei, não sei o que vai ser dele, não sei nem o que vai ser de mim, nem se eu continuarei, se estarei de novo…
Foi a pressão?
- Que pressão?… Há anos ele lida com pressão, com mundiais, é bicampeão, ginásios cheios, não sei o que foi, foi querer cravar antes, fechar antes do tempo…
Como ele estava indo dava para medalha?
- Dava, dava para o ouro, para chegar a 16.100, o chinês fez 16.050. Mas aí o Diego caiu. Quando o cara cai o juiz chuta o balde. Caiu? O juiz chuta o balde, mermão.
E agora?
- Não sei, não sei nem o que dizer. Foi a maior pancada que tomamos na vida, uma medalha de ouro ao contrário. Ele vai levar muito tempo para se recuperar, e eu também.
Mas o que teria acontecido?
- Não sei dizer..
Teria sido o Sobrenatural de Almeida, do Nelson Rodrigues?
- Quem…? Sobrenatural…? É possível, não sei dizer, nem o Diego…
A entrevista segue. Jade Barbosa vai saltar. Primeiro salto e cai, joelhos quase dobrados. Segundo salto. Os joelhos se dobram ainda mais. Jade soma 14.487 pontos, penúltimo lugar como Diego Hypólito.
Daiane dos Santos, no solo. Vai bem, até que pisa além da marca no quadrilátero. Uma, duas vezes. Sexta posição, 14.975 pontos. E a decisão: “Em Londres eu não estarei”.
Seguem as provas. Chineses, croata, norte-americano, romeno….Erros, quedas, escorregões. Os atletas se levantam, sorriem, recomeçam. Sem espanto. Sem lágrimas, salvo um dos chineses. Quedas seguidas de aplausos do público que lota o ginásio. Quanto maior a queda, maior o incentivo para a retomada.
Impossível não recordar o Pan Rio/2007. As vaias para adversários não apenas antes e depois, mas também durante as provas. Vaias que ajudam a explicar muito. Como será numa eventual olimpíada?
Diego e a irmã Daniele se abraçam e choram. Diego lê a Bíblia sentado na arquibancada. O técnico Renato Araújo encerrou a longa entrevista. Sem saber o que dizer, mas dizendo muito mais do que imagina ter dito, disse ainda, quase ao final:
- ….não sei quem falou em sobrenatural não sei que de Almeida..não sei explicar mas acho que é isso…as forças ocultas…
O ginásio começa a se esvaziar, aqui e ali repórteres rememoram a súplica de Diego que, tanto explica. Diego é mais um atleta brasileiro que compete não apenas em seu nome, em nome do país. Como tantos outros Diego sente, sentiu, o peso de competir por 190 milhões de brasileiros; mesmo por aqueles que fingem torcer ou torcem mesmo pela desgraça de quem chegou lá como chegaram Jade, Daiane e Diego.
Diego Hypólito é bicampeão mundial, 7º atleta olímpico do mundo no solo, mas ao errar chora, suplica, e explica tudo:
- …peço desculpas ao povo brasileiro…
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…São Caymmi desconfiaria
Dez e meia da noite. Mais uma vez no maravilhoso estádio Ninho de Pássaro, agora para saber quem é o homem mais rápido do mundo, o vencedor dos 100 metros rasos. Pela manhã, com 21s30, César Cielo entrou para a história da natação e do esporte brasileiro ao se tornar o atleta olímpico mais rápido do mundo nos 50 metros nado livre.
Usain Bolt, marrento, simula disparar uma flecha- que seria ele mesmo- três minutos antes do início dos 100 metros, a prova mais importante do atletismo mundial. Vai começar. O estádio emudece. Tiro disparado, em uníssono um oooohhhh ecoa pelas arquibancadas, Bolt larga atrás. Mas a 10 metros da chegada, já desconectado do segundo pelotão, o jamaicano diminui o ritmo, bate no peito e comemora os 9s69, o ouro e o recorde mundial.
Estamos em frente à linha de chegada, jornalistas se entreolham, se espantam com a facilidade, em especial com a diminuição do ritmo para a comemoração antecipada. O homem mais rápido do mundo sapateia, dança, dispara flechas imaginárias e inicia a volta olímpica.
Imperdível, risível, a dúzia de privilegiados fotógrafos que trabalha dentro da pista a tentar alcançar Bolt. Máquinas, lentes e abdomens a sacolejar no rastro das largas passadas do velocista, que busca sua torcida e a bandeira da Jamaica.
Diante das câmeras e lentes, Usain Bolt começa a faturar seus milhões de dólares. Bandeira às costas, segura as sapatilhas douradas, uma em cada mão. Quem filmar ou fotografar o jamaicano nos instantes seguintes à vitória espalhará uma mensagem pelos quatro cantos da Terra: quem calça o humano mais rápido do mundo.
Ver quem são os homens mais rápidos do planeta na água custou caro, muito caro neste sábado, 16. Na sexta-feira a polícia chinesa havia prendido 110 cambistas. Em vão. Vai cair na piscina, para nadar os 100 metros borboleta, o anfíbio que todos querem ver quebrar o recorde de Mark Spitz, 7 medalhas em Munique/72: Michael Phelps, norte-americano como Spitz.
Nas cercanias do Cubo d’água, a disputa por ingressos no câmbio negro. Brasileiros na batalha. César Cielo, cheiro de ouro, vai nadar os 50 metros. Felipe Viera, jornalista gaúcho, resolve pagar pra ver.
Em Porto Alegre, Felipe Vieira tem programas na Band AM, Band News e Band TV. Ele está em Pequim por conta própria, por amor aos esportes e à aventura. Paga ingressos do seu bolso. Sempre no câmbio negro. O colorado, que foi ao Japão ver o Inter sagrar-se campeão do mundo, já é chapa dos cambistas.
A coisa não está fácil. O cambista, inglês, percebe a camisa verde-amarela de Felipe, e sabe que há um brasileiro nas finais da manhã. Pede US$ 600. Felipe regateia mas pensa em pagar. Quando vai meter a mão no bolso, surge um irmão do Norte e pergunta quanto é. O cambista aponta o orecchione Phelps no telão e comunica, sereno: “Mil dólares”.
O norte-americano entrega dez Franklins e pega o ingresso. Felipe, saliva e pergunta: “Tem mais um?”. Resposta: “Tenho, o último, por mil dólares”. O norte-americano que quer assistir Michael Phelps se tornar lenda paga mais mil e leva o último ingresso, para um amigo.
-Não deu, amor, mil dólares… -, desabafa Felipe para a namorada, Allessandra. Ela, em Petrópolis, Porto Alegre, encontra a solução. Felipe Viera, que queria tanto ouvir o hino nacional e ver a bandeira brasileira subir no pódio, acompanha a vitória de Cielo pelo telefone. Lá em Porto Alegre a namorada Allessandra aumenta o som da tevê enquanto Felipe, solitário em frente ao Cubo d’ água, gruda o ouvido no celular. César Cielo é o primeiro ouro do Brasil em Pequim.
Phelps se torna lenda. Nos100m borboleta faz 50s58 e bate o sérvio Mirolad Cavic, que até o último dos seus dias pensará no que perdeu, no que deixou de ganhar. Cavic chegou à borda da piscina à frente, mas vacilou. Phelps, aos 23 anos, tocou a unha antes e por um centésimo de segundo ganhou seu sétimo recorde e ouro.
O recordista de medalhas olímpicas até então estava em Detroit (EUA), onde um dos filhos jogaria basquete neste sábado. Mark Spitz, magnânimo aos 58 anos, resumiu a ópera: “Michael foi épico”.
Um dia para a história dos homens mais velozes nas pistas e piscinas. Usain Bolt dispara suas flechas, exibe suas sapatilhas, dança enquanto o telão do Ninho de Pássaro reprisa a vitória do homem mais rápido do mundo.
Penso na notícia recebida há pouco. Aos 94 anos morreu Dorival Caymmi, mestre da música brasileira. Dele se dizia ser o criador de um novo modo de viver a vida, de se medir o tempo. Existiria um tempo lento, um outro muito lento, e um ainda mais lento, o de Dorival Caymmi. Reprise no telão. Bolt, disparado… tão rápido que São Caymmi desconfiaria.
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Comentários
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- Roger Vadan » Postado em: 18 de agosto, às 18:28
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Só pegam quando cara é jamaicano ou outro fim de mundo, o Carl Lewis agora se sabe que era “aditivado” Naquela famosa prova dos 100m do Ben Bombado Johnson, os três primeiros estavam na química também.
Os três atletas beneficiados com medalhas após a desclassificação de Ben Johnson em Seul, os americanos Carl Lewis e Calvin Smith e o inglês Linford Christie, foram, em algum momento de suas carreiras, em provas mais ou menos importantes, nacionais ou internacionais, apanhados em testes antidoping por consumo de substâncias ilegais. Johnson foi o único que admitiu usar drogas e o único que perdeu suas medalhas e seus recordes.
Ou seja o Robson Caetano teria sido o primeiro dos honestos naquela.
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- Tiago » Postado em: 18 de agosto, às 21:16
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Nossa, pedro. Na minha terra isso se chama peleguismo.
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- Bruno » Postado em: 25 de agosto, às 14:39
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Olhem o grid na foto. Por que os americanos fazem ou fizeram, não se justifica, que outros possam também fazer. Lembram-se da Florence Griffith-Joyner, pois é. Trata-se de roubo, e o COI é conivente com toda esta palhaçada. Quem não se droga, não tem a menor chance. Muito dificil acreditar que o cara é tão melhor que os demais. Só tempo dirá.
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- Chorao » Postado em: 25 de março, às 18:18
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Tu é um cagao chorao ein processando a NC so pq fico “tristinho”
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- chororo » Postado em: 26 de março, às 01:52
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E ninguém mais cala
esse chororô…Quem escreve o que quer
Lê o que não quer.

Pois é, quem nunca chorou de tristeza ou alegria ? O choro, a alegria, a frustação fazem parte do mundo esportivo. O jovem Hipolito chorou e nós choramos junto com ele. Ele mostrou o lado frágil do ser humano. O corpo, como qualquer máquina falha.
Perder não é humilhante. Entretanto perder sem lutar é covardia. E o Hipolito mostrou que não é covarde, lutou com todas as armas disponíveis. Perdeu, mas lutou !
Tanto ele como outros atletas são dignos da nossa admiração, principalmente pela perseverança. Muito se fala em apoio ao atleta. Muito bla bla bla e pouca ação. Os resultados pífios desta olimpiada aponta para direção de mudanças, e mudanças urgentes se quizermos ser um pouco mais competitivo.
Pois é, ninguem fala das meninas da vela, do pessoal do Boxe que treina em condições ..deixa pra lá… por que ninguém fala para o próprio Diego: “VOCÊ NÃO TEM QUE PEDIR DESCULPAS !”, Parabéns a ele…errou, uma pena.
E a Seleção de Futebol? parecia que apenas eles tinha ido à Pequim… milhonários que não sabem o que é treinar 6 ou 7 horas por dia..pediram desculpas?
Diego apenas sentiu o peso de uma enorme falta de condições esportivas no pais. Por que isso?
Ora! O Brasil manda pouquíssimos atletas em condições de ganhar uma medalha de ouro. As grande potências olímpicas mandam diversos atletas com essas condições. Lá também muitos favoritos falham. No entanto, existem muitos outros que obtém sucesso.
Aqui, sobre os nossos pouquíssimos “pobres” candidatos à medalha de ouro existe uma pressão enorme. Os pés e mãos desses atletas estão presos à teia da incompetência, tecida pela falta de incentivo e apoio aos esportistas nacionais.
Parabéns Diego por sua honrosa 7a. posição! É um grande feito seu.! Fruto unicamente de seu esforço individual.
A pergunta é : Com um desempenho ridículo deste é que o Brasil pretende sediar uma Olimpíada? 1 medalha de ouro apenas para uma população de quase 200 milhões de pessoas? Brasil, falta muita coisa para resolver dentro de casa ! Eu amo e sou praticante de esportes, mas primeiro resolva as mazelas para depois pensar em Olimpíada, Copa do Mundo, etc… Em tempo: para você que não é Carioca, saiba que os Jogos do Pan realizados aqui no ano passado não trouxeram nada de benefício para a cidade. A única coisa que restou foi um monte de denúncias de super faturamento em obras, desperdício de dinheiro público com instalações largadas às moscas, trânsito caótico, segurança zero com polícia tão perigosa quanto os bandidos (aliás , não entendo como não teve nenhum competidor carioca com medalha de ouro nas modalidades de Tiro),etc..etc.. Olimpíadas no Brasil? NÂO!!!! Copa do Mundo no Brasil? Não!!!!
Esse papo furado de que o Brasil (leia-se, o governo) não incentiva o esporte é tão idiota, hipócrita, cínico, imbecil que dá nojo!!!!
Desde de quando a imprensa noticia (cobrir então…) competições como tênis de mesa, polo aquático, handebol, saltos ornamentais, esgrima, tiro etc. etc. etc. Sem a exposição na imprensa não surgem patrocinadores (aliás, já repararam que os grandes patrocinadores são empresas estatais - Correios, Caixa, Petrobras, Banco do Brasil????). E depois ficam os jornais e tvs (especialmente Trajano e cia.) reclamando e culpando esse e aquele!!! Mas a imprensa desse país não presta mesmo!!!!!!!!!!
Desde de quando eu, você e a quase totalidade da população brasileira pagamos, ou até mesmo de graça, para assistirmos competições como as que citei acima???? E ainda acha lindo sair vaiando tudo e todos em competições internacionais… Ridículo, mau-caráter!!!!
Que conversa mais fiada!!!