Bob Fernandes
No parque dos protestos, muito bambu. E tango.
Parque Bambu Roxo. Um dos três liberados em Pequim, alardeia o governo, para protestos políticos. Vale tudo.
Os outros dois espaços livres nos Jogos Olímpicos e na capital são os parques Hitan e do Mundo.
Antes do passeio deste blogueiro pelo Parque Bambu Roxo, um esclarecimento se faz necessário.
Há por aqui uma diferenciação decisiva, fundamental, entre protestos por motivos sociais e os estritamente políticos, dirigidos contra o Estado, o governo central.
Por motivos pessoais, familiares, por reclamos salariais, sociais, protestos China afora saltaram de 10 mil em 1994 para 80 mil em 2007.
Os desabrigados pelo terremoto de Março, alguém que o filho de um político estuprou numa província, isso não há governo que consiga, ao menos de início, impedir.
Nem mesmo na China. (A propósito, leia aqui o Diário da China)
Nesta segunda, 4, por exemplo, 50 chineses desalojados de suas casas por conta das Olimpíadas enfrentaram a polícia. Nenhum deles foi detido. (Leia aqui: Polícia enfrenta grupo perto da Praça da Paz Celestial)
Isso não há quem segure. Outra coisa é a crítica política pura, dirigida contra o Estado e suas instâncias maiores.
O Parque Bambu Roxo é área livre, brada o governo chinês. Vamos ao Bambu.
Terra Magazine visitou o Bambu, nas bordas de Pequim, em busca dos meandros dessa novela.
Ou drama, num país de 1,3 bilhão de habitantes que teria executado 5 mil deles em 2007. As usual, com um tiro na nuca.
Os números são da Nessuno Tocchi Caino, organização italiana contrária à pena de morte e ligada ao Partido Radical Transnacional.
O governo chinês contesta estatísticas do gênero. Diz, em resumo, ser intriga da oposição; de contra-revolucionários, ou da mídia burguesa ocidental.
Vamos, então, ao Parque dos protestos. A 4 dias do início das Olimpíadas, onze da manhã.
Numa das entradas no parque de 466 mil metros quadrados, dezenas de adultos, com vigor e fervor, dançam. Bailam. Um tango. Com professor.
Logo ao lado, num espaço especial, centenas de crianças berram: fome, xixi e variações na creche; os outros protestos devem estar se dando parque adentro.
Nas alamedas à margem do canal Shuang Zi, centenas e centenas caminham resolutos, quase marcham, embalados pelos alto falantes e pelo som de One World, One Dream.
Um Mundo, Um Sonho, o slogan das Olimpíadas chinesas.
Dezenas e dezenas de espécies de bambus, três lagos, duas ilhas, colinas, casas de chá, restaurantes, centenas de tipos de plantas, árvores, flores…
Onde estarão os manifestantes, os protestos?
Enquanto eles não surgem, desfilam as camélias japônicas, nelumbo nucíferas, magnólias denudatas…
Alvoroço, ruídos… hora de apertar o passo… é alguém a descrever as propriedades do Narcissus Tazettavar. Chinesis.
Talvez, quiçá, as inscrições em grandes livros abertos ao lado das árvores sejam parte do pacote multimídia de protestos.
A tradução é exata: o poeta Li Jian, da dinastia Than, discorre com veemência sobre as qualidades do bambu novo.
Quem sabe no próximo livro, uma mensagem subliminar, algo assim?
Tian Deng, poeta da dinastia Ming, avança sobre as estações do ano, aborda o frio terrível, o vento gélido e devastador.
Onze e meia da manhã, 34 graus em Pequim.
Jovens reunidos, mais de 15. Altos brados. É uma discussão. (Enfim).
O debate é sobre a Pseudossa Japônica, uma das incontáveis variáveis. Do bambu.
O parque nasceu em 1644, na dinastia Qing. Em 1953 foi elevado à categoria de enorme bambuzal.
Meio dia. Um painel renova as esperanças. Protestos por escrito, certamente.
Tradução: da grandi florum se faz um chá delicioso, a dendra themax é isso, a paeonia suffruticosa é aquilo, a cymbidum é aquilo outro.
Meio dia e quinze. Demorou, mas chegou. Numa das saídas do Bambu Roxo, o Centro de Informações para turistas e visitantes. Agora vai.
A mocinha larga a sopa de macarrão no tupperware e responde. Sim, ela já ouviu falar no rádio, na tevê e no jornal que o Bambu Roxo abriga protestos.
Não, ela não viu nenhum ainda, nem sabe informar mais.
Talvez não seja uma boa pedir, logo de saída, a confirmação, ou recusa, aos números do Relatório das Nações Unidas para 2008.
Diz a ONU que, na China, 500 mil cidadãos e cidadãs estão presos sem acusação formal ou processo legal.
(Não sei quem fez o censo, cadeia a cadeia, assim como seria bom saber como foram contados o 1,3 bilhão de chineses).
A mocinha chama a Chefe de Relações com a Mídia e Público Externo.
Infelizmente ela não pode falar, salvo com hora marcada.
Vai daqui, vai dali, rola.
Sim, o Bambu Roxo é uma das três áreas de Pequim liberadas para protestos.
Não, no quase meio milhão de Km2 do Bambu Roxo ainda não se ouviu nenhum brado, salvo quanto a bambus.
![]()
![]()
![]()
Não, ela, Wang Jin, não tem notícias de alguém que esteja se escalando para protestar ali.
Como se faz para protestar?
É simples.
O sujeito procura a diretoria de segurança do Comitê Olímpico, preenche um formulário, explica o porquê e o para quê e espera a resposta.
Sun Weide, porta-voz do Comitê Organizador, resume:
- …quem quiser se manifestar preencha um formulário e, se tiver autorização das autoridades de segurança, pode fazer a manifestação.
Mesmo assim, emenda Weide, sem desrespeitar as leis do país nem o espírito dos Jogos.
O venerável senhor Liu Shaowu é o diretor de segurança do Comitê Olímpico.
Há quem manifeste algumas dúvidas quanto ao processo, e em especial, seu desfecho.
A senhora Sara Davis, diretora executiva da ONG Ásia Catalyst, andou relatando na mídia européia os resultados de uma última experiência do gênero.
Então, contou a senhora Sara, ou não se teve notícia de resposta alguma ou, de outra parte, verificou-se uma sucessão de mudanças de domicílio.
Alguns dos cidadãos e cidadãs propensos ao protesto trocaram o conforto do lar pela cana. Pela cadeia, para ser fiel às palavras da senhora Sara.
Meio dia e meia. Em Pequim, 34 graus. No Parque dos protestos, bambus. E tango.
Este repórter promete conferir, no decorrer dos Jogos, os protestos nos Parques Hitan e Mundo. E como andaram as coisas no bambuzal.
.
Veja também:
» Diário da China
» Confira as informações de Terra Magazine
» Acompanhe as últimas notícias das Olimpíadas
Caro Hermógenes,
espanta-me com tuas palavras. O que escreves revela que tem nenhum ou pouquíssimo conhecimento sobre a China. Algum dia, pisastes em solo Chinês?
A mesma imagem que tens da China, provavelmente moldada por artigos sensacionalistas publicados em aqui e acolá, é a mesma que cidadãos do primeiro mundo têm do Brasil. No exterior, acham que o Brasil se resume à macacos, favela, prostituição e crime.
Os mesmos que comem cachorro na China são os mesmos que comem lagarto no sertão brasileiro. Os mesmos que matam sem piedade por lá, são os mesmos que matam nas ruas do Brasil. Os mesmos que vendem órgãos lá, são os mesmos que vendem aqui.
A diferença é que a China agora é a terceira maior potência do mundo, diga-se de passagem, com uma projeção internacional e importância no mercado infinitamente maior que a do Brasil.
Do jeito que o Brasil vai, em poucos anos estaremos comendo baratas com mussarela e borda recheada.
Se a China é uma “ditadura criminosa” pelo fato de matar traficantes e bandidos de toda a espécie, além de alguns milhares que desrespeitam os limites das leis locais, o que o Brasil é?
E por último, qual a diferença entre poder protestar (e nada poder mudar) e não poder prostestar?
No Brasil, todos reclamam, mas alguém aqui já viu um amigo sair às suas para fazer como os Sul-Coreanos fazem?
Mesmo os poucos migalhos que saem para fazer baderna, algum deles já conseguiu mudar alguma coisa nesse país que se diz ser do futuro?
Ainda reclamam que é proibido fazer batucada às duas da manhã no país dos outros…
Bob, primeiramente quero parabenizá-lo pelo Terra Magazine. Trata-se de uma revista eletrônica onde se mesclam informação com opinião. Eu já disse uma vez no próprio Terra Magazine que você é um “monstro” para escrever. Esta metáfora precisa ser entendida da melhor maneira possível. Você sabe como usar as palavras, como concatená-las e como distribuí-las. Certamente irei ler seus post aqui no Terra. Sou de Jaraguá do Sul (SC) e sinto-me honrado em poder deixar minhas mensagens que chegam em tempo real aí na China. A internet é maravilhosa. Não saberia viver sem ela. Um abraço, Bob!
No parque dos protesto, que virou bambuzal quando nasci, gostei mesmo é de saber que rola um tango, pq já vi que protestar na china da cadeia….
Achei ótimo seu texto e mostre-nos os demais protestos..digo..parques.
Até