Bob Fernandes
Seleção: a batalha da camisa

Quem viu conta que foi lindo. Na noite de quinta, no Ibirapuera, São Paulo, o encontro de duas sínteses do Brasil cool, sofisticado e ao mesmo tempo simples, do Brasil sutil. Brasil que em meio à sofreguidão, grossura e burrice, existe, resiste. Na belíssima sala de espetáculos desenhada pelo brasileiríssimo Oscar Niemeyer, o brasileiríssimo João Gilberto.
Em 2002, numa conversa de quase uma hora, ouvi deliciado João Gilberto defender com veemência, paixão e ira um outro que, dentro do seu campo, foi sempre brasileiríssimo. Sofisticado e simples, eficaz e sutil no que mais sabia fazer. Romário.
- …o Romário é o Brasil, não esses brutamontes que se cata aos montes em cada esquina. O Romário tem uma incomparável noção de tempo, tem a precisão, o talento, a sutileza e a genialidade do verdadeiro Brasil - pregava ao telefone João Gilberto, ele mesmo a condensação minimalista de um Brasil genial e sutil.
Esse Brasil me surge um pouco ao ver a Marta, sutil, tocar por cima da goleira norueguesa e fazer o segundo gol. Meia-boca o Brasil 2 Noruega 1 que leva as meninas para a briga na semifinal. Sutis, Marta e Cristiane, quando têm a bola nos pés, a possibilidade do tempo certo, não quando levadas a correr atrás de bolas podres.
Mas, confesso, esse Brasil de Niemeyer, João Gilberto, Romário, Marta & Cia baixa aqui na hora de escrever muito mais em contraposição a um outro Brasil. Esse, o da sutileza, é a antítese do Brasil revelado nas linhas abaixo. O episódio é o do uso ou não do símbolo da CBF no uniforme das seleções brasileiras de futebol nos Jogos Olímpicos.
Antes, para ficar claro o tamanho da briga: o futebol no mundo é, dizem os entendidos, negócio de quase meio trilhão de dólares. Olimpíadas? Só essa de Pequim custou US$ 45 bilhões. Somem-se a isso os gastos e o todo que envolve 27 esportes em outros 204 países presentes aos Jogos e se terá a dimensão do que está por trás da briga FIFA/CBF x COI/Comitê Olímpico Brasileiro.
Tudo já estava acertado entre o suíço Joseph Blatter, da FIFA, e o francês Jacques Rogge, do COI. Como os estatutos proíbem o uso de uniforme não-olímpico, as seleções que jogassem com o escudo na camisa seriam multadas. No caso, as seleções brasileiras e o escudo da CBF. Multa de US$ 1 mil por partida. Menos de US$ 10 mil para quem chegasse à final.
Tudo certo. Só que no final da manhã da sexta-feira, 8 de agosto, hora de Pequim, início da madrugada, hora do Brasil, a coisa estoura. Lula, o presidente, está na embaixada do Brasil, manhã de entrevista com jornalistas estrangeiros. O tom elevado na voz do presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman, sobressalta alguns:
- Presidente, presidente…
O que Lula ouve de Nuzman - e este blogueiro ouviu alguns dos presentes na embaixada e fontes do governo - é preocupante. Preocupa também o ministro do Esporte, Orlando Silva, que ali presente desconhece a gravidade do assunto, é surpreendido pela informação do presidente do COB: se o Brasil jogar com o escudo da CBF no uniforme o projeto Rio-2016 corre sérios riscos.
Mais: o país pode ser punido ainda em Pequim. O presidente, uma viagem à China depois, cansado, se tensiona. Sua assessoria se move, o ministro do Esporte se mobiliza. Tem início um capítulo dessa história que, hora do Brasil, começa por volta da meia noite e só termina no final da madrugada.
Fábio Simão, chefe da delegação brasileira de futebol, é contatado em Shenyang. Dunga e Rodrigo Paiva, assessor de Comunicação, são postos a par. Sérgio Cabral, o governador do Rio de Janeiro, também em Pequim e preocupado, entra no circuito de telefonemas. A assessoria do presidente da República dispara ligações. É preciso falar com Ricardo Teixeira, o presidente da CBF.
Teixeira está no Rio. É madrugada. Ele dorme. Duas horas depois, no circuito Shenyang-Pequim, os fatos começam a ser esclarecidos: a seleção poderia jogar, bastaria pagar a multa. Mas, resta o temor. E a retaliação à candidatura Rio-2016?
Fontes da presidência detalham: Lula estava preocupado. Ainda no dia da abertura dos Jogos Olímpicos se encontraria com o presidente do COI e não queria obstáculos no caminho da conversa, e do projeto Rio.
Ricardo Teixeira é encontrado e acordado no Brasil. No meio da madrugada. Não gosta nem um pouco. Porque, no seu entender, tudo já estaria resolvido. Não gosta do barraco, do stress por conta de algo que já estaria acertado. O presidente da CBF, enfim, já de manhãzinha no Brasil, fala com o ministro do Esporte, Orlando Silva. Relata que o problema não existiria, mas repete a decisão tomada na madrugada.
Para que a CBF não viesse a ser responsabilizada por eventuais e supostos prejuízos à candidatura Rio, para que não parecesse não apoiar a Rio-2016, para não criar um clima em meio à Olimpíada que depois poderia ser usado como munição pelos adversários, as seleções brasileiras abririam mão de jogar com escudo da CBF. Fim da crise de Itararé.
O rescaldo viria nas entrelinhas, ou mesmo nas linhas, em duas notas da CBF, a primeira delas às 14h30 do mesmo dia 8, hora do Brasil. Claríssima em seus termos quanto ao clima vivido nas horas anteriores:
- O presidente da CBF, Ricardo Teixeira, recebeu do Comitê Olímpico Brasileiro o apelo (Nota da Redação: !!!) para que a Seleção Brasileira Olímpica não use mais a camisa oficial, a da seleção pentacampeã do mundo (NR: !!!), sob o argumento (NR: !!!) de que estaria prejudicando a candidatura do Brasil a sediar as Olimpíadas em 2016.
Dizia-se ainda na nota:
- O presidente Ricardo Teixeira (…) para evitar ainda quaisquer constrangimentos ou transtornos (…) decidiu atender ao pedido do COB (…) e comunicou a presente decisão à FIFA.
Cereja na mesma nota do presidente da CBF. Convocado a dizer alguma coisa, Ronaldinho lamentava “não poder usar mais a camisa oficial”. Frase:
- A camisa com as cinco estrelas é um motivo de orgulho para todos nós, jogadores, e para o povo brasileiro. A gente queria muito continuar jogando com ela. Mas se isso pode atrapalhar a candidatura do Brasil para 2016, temos que entender e aceitar.
Essa nota mal estava na praça quando a assessoria de comunicação do COB de Nuzman enviou um email a jornalistas solicitando correção. Dizia que o pedido não era do COB, mas sim do Comitê Olímpico Internacional.
No dia seguinte, às 9h31, outra nota da CBF. Esta, de Dunga. Que destacava “o espírito olímpico da Seleção ao não jogar mais com a camisa oficial”. O comunicado da CBF News escancarava o título “Técnico diz que até jogadores adversários sentirão falta da camisa 5 estrelas”, e Dunga mandava:
- A camisa da Seleção Brasileira é um símbolo, respeitado pelos torcedores em todo o mundo. Claro que os jogadores sentiram por não poder mais usá-la nas Olimpíadas.
A boleirada, sempre atenta à zica, à urucubaca, não gostou da mudança de camisa, e ainda bate na madeira. A Nike improvisou. Nesta quinta 15, no Brasil e Noruega, o número 0 da camisa 10 de Marta, despregado, ameaçava cair.
Uma semana depois da crise, o troco. Florentino troco do ministro Orlando Silva, pego de calças curtas diante do presidente Lula pelo movimento de Nuzman. (A análise é do blogueiro, não do ministro.) Numa conversa na quinta-feira, 14 (ler aqui), Orlando Silva informou:
- …ainda não sei como seria, mas vou convidar a Transparência Brasil para monitorar, acompanhar todos os gastos públicos com a Copa 2014…
Claudio Abramo, diretor-executivo da Transparência Brasil, a Terra Magazine respondeu na mesma quinta: “Aceitamos o convite e estamos à disposição do ministro”.
Mas o que seria florentino no movimento e no convite? Bem, só a pré-candidatura Rio-2016 custará algo como R$ 100 milhões. Conta paga pelo governo federal, pelo ministério de Orlando Silva. Que convida a Transparência Brasil para monitorar gastos de um evento, a Copa-2014, que ao menos em parte é privado. Pergunta desde então solta no ar: por que, então, não monitorar também os gastos, públicos, com a pré-Rio 2016? Ainda mais depois dos gastos no Rio 2007…
PS: Gutão. Mensagem recebida. Abração e Bora Baheeeaaa!
PS II: O maior meia esquerda que vi jogar, Gatão Pédico, do Bragantino. Felicidades, grande abraço para os amigos.
. Veja também:
» Diário da China
» Confira as informações de Terra Magazine
» Acompanhe as últimas notícias das Olimpíadas
A mesma ladainha de sempre. não sei como eu ainda venho visitar esse blog..
DOPADO!! DOPADO!!! É O BEN JOHNSON II.
Já tinha cantado a bola. Essa é a prova “nobre” e uma das mais difíceis do atletismo. Tanto que os recordes são mínimos e demoram para serem batidos. Esse jamaicano me lembrou NITIDAMENTE o Canadense Ben Johnson em Seul 88. Numa prova dessa o cara comemora e “brinca” quase 2 metros antes da chegada???? Pode esquecer!!! E ainda diz na entrevista que dorme pouco e se alimenta de nuggets de frango e junk food? DOOOOOPING!!!!
O futebol brasileiro tem que vestir a camisa do Brasil, com a bandeira do Brasil, o símbolo da olimpíada, e nao a camiseta da CBF que nao vale nada numa olimpiada… ser pentacampao do mundo é o mesmo que nada em uma olimpiada… tem q ter espirito olimpico, vontade de representar o Brasil.. por isso q o futebol nunca ganhou uma medalha de ouro… e provavelmente jamais ganhara com esta mentalidade…
Atitude e disciplina são fundamentais em qualquer trabalho! Ou alguém duvida?
Basta ver os atletas da China!
A maioria dos atletas brasileiros não passa de medíocres “fazer de conta” não levam a serio imaginam subir ao topo sem sacrifícios.
Vi uma declaração do nadador CIELO que treinou fora do Brasil, o treinador o indagou se queria treinar de verdade para isso teria que deixar de lado namoros e outras coisas mais, veja a seriedade dos preparativos para ser um atleta olímpico! Ele é um exemplo de verdade!
Chegou à hora de uma reflexão séria a respeito, o vexame Brasileiro com o batalhão de atletas é triste o resultado para não dizer trágico, qual será o valor custo de cada medalha quando esse grupo retornar ao Brasil, qual o custo para cada cidadão brasileiro à conquista da minguadas medalhas? A TV Globo me enoja de tanta asneira que consegue transmitir, tenho vergonha!
Bom hoje vejo a seleção brasileira masculina em todos os níveis da seguinte forma….
Podre, mediocre, sem carater ou honra para ser chamada de seleção brasileira…
Hoje assistindo a uma reportagem vi que Messi pagou seu proprio seguro, que o EUA pagou para mudar o horário das finais da natação para verem Phelps entrar na história…
E nós vimos um time sem atitude e nem honra para enfrentar a Argentina…não vi nenhum jogador ali dentro de campo bater no peito e falar vamos para frente..somos os melhores, como Giba fez contra a Itália…
E depois ainda querem vir falar na TV que não torcemos ou que nos relembramos do passado…
O passado sim..foi glorioso..o quão grande ver Pelé desfilar o seu reinado, ver Sócrates e Zico mostrar ao mundo o show em 82…
E tenho que ouvir narradores na televisão falar que Ronaldinho acordou, está sorrindo…só se for de ironia….
Essa é a minha maior decepção com o futebol masculini, pois não jogam por orgulho a seu país, mas sim por status e miseros trocados…
Tenho dito…